Eva percorrendo umas vezes estradas, outras veredas. Caminhando sempre com amor e a esperança de encontrar a porta certa. Parando de vez em quando para retemperar forças... admirar uma flor… uma paisagem… fazer novas amizades... e meditar... e reencontrar velhos amigos... e demais companheiros de jornada!
Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia desapareceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare. A ideia da comemoração teve origem na Catalunha: a 23 de Abril, dia de São Jorge, uma rosa é oferecida a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países do mundo.

 

Texto retirado do sítio da DGLB, Direcção–Geral do Livro e das Bibliotecas 

 

Neste dia em que se celebra o livro, opto por um pequeno texto publicado em 2006 nos “Escritos de Eva”, retirado dum livro que me diz muito.

 

«Chamo-me Óscar, tenho dez anos, peguei fogo ao gato, ao cão, à casa (acho que até grelhei os peixes vermelhos) e é a primeira carta que te mando porque dantes, por causa dos estudos, não tinha tempo.» Podia também ter dito: «Chamam-me Cabeça de Ovo, pareço ter sete anos, vivo no hospital por causa do meu cancro e nunca te dirigi a palavra porque nem sequer acredito que tu existas.»

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Apenas a Vóvó-Rosa não mudou. ... ... ... Deus, não te apresento a Vóvó-Rosa, é uma grande amiga tua, visto que foi ela quem me disse para te escrever.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

- E porque haveria de escrever a Deus?

- Irias sentir-te menos só.

- Menos só com alguém que não existe?

- Faz com que ele exista.

Debruçou-se para mim.

- Cada vez que acreditares nele, existirá um bocadinho mais. Se persistires, existirá completamente. Então, vai fazer-te bem.

- O que é que eu lhe posso escrever?

- Confia-lhe os teus pensamentos. Os pensamentos que não dizes são pensamentos que pesam, que se incrustam, que são um fardo, que te imobilizam, que tiram o lugar às ideias novas e que te apodrecem. Vais transformar-te numa lixeira de velhos pensamentos malcheirosos, se não falares.

- O.K.

- E depois, a Deus, podes pedir-lhe uma coisa por dia. Atenção! Só uma.

- Não vale nada, o seu Deus, Vóvó-Rosa. O Aladino tinha direito a três desejos com o génio da lâmpada.

- Um desejo por dia é melhor que três durante uma vida, ou não?

- O.K. Então posso pedir-lhe tudo? Brinquedos, bombons, um carro...

- Não, Óscar. Deus não é o Pai Natal. Só podes pedir coisas do espírito.

- Por exemplo?

- Por exemplo: coragem, paciência, esclarecimentos.

- O.K. Estou a ver.

- E também podes, Óscar, sugerir-lhe favores para os outros.

- Um desejo por dia, Vóvó-Rosa, vou lá desperdiçá-lo, primeiro vou guardá-lo para mim!

E pronto. Então, Deus, nesta primeira carta, mostrei-te um pouco o género de vida que tenho aqui, no hospital, onde agora me olham como um obstáculo à medicina, e gostaria de te pedir um esclarecimento: vou curar-me? Respondes sim ou não. Não é lá muito complicado. Sim ou não. Riscas o que não interessa.

  

Até amanhã, beijinhos

Óscar.

 

P.S.  Não tenho a tua morada: como é que faço?

 

 

in "Óscar e a senhora cor de rosa" de  Eric-Emmanuel Schmitt

 

in http://escritosdeeva.blogs.sapo.pt/16087.html



publicado por eva às 22:12
Terça-feira, 01 de Junho de 2010

Em Portugal comemora-se hoje o Dia da Criança.

Decidi ilustrá-lo com uma das mais belas páginas sobre crianças.

 

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 

de Almada Negreiros

in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte" 

 



publicado por eva às 23:30
Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto nasceu em Parral, Chile, em 12 de julho de 1904. Anos mais tarde, em 1923, Ricardo Basoalto vendeu todos os seus bens, penhorou o relógio presenteado pelo pai e publicou o seu primeiro livro, “Crepusculario”. O mundo ficou a saber que havia um poeta que assinava Pablo Neruda.

 

 

O Pai

 

Terra de semente inculta e bravia,

terra onde não há esteiros ou caminhos,

sob o sol minha vida se alonga e estremece.

 

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas

que me abrasam os olhos e as faces.

 

Escureceu-me a vista o mal de amor

e na doce fonte do meu sonho

outra fonte tremida se reflecte.

 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram

o que me deram e porque depois

conheci a solidão do céu e da terra.

 

Olha, minha juventude foi um puro

botão que ficou por rebentar e perde

a sua doçura de seiva e de sangue.

 

O sol que cai e cai eternamente

cansou-se de a beijar... E o outono.

Pai, nada podem teus olhos doces.

 

Escutarei de noite as tuas palavras:

... menino, meu menino...

 

E na noite imensa

com as feridas de ambos seguirei.

 

 

Pablo Neruda, in "Crepusculario"

 

 

 

Fotografia original em http://www.neruda.uchile.cl/infancia.htm 

 

 

«Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio coloca ideias.»

Pablo Neruda

 



publicado por eva às 19:13
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