Eva percorrendo umas vezes estradas, outras veredas. Caminhando sempre com amor e a esperança de encontrar a porta certa. Parando de vez em quando para retemperar forças... admirar uma flor… uma paisagem… fazer novas amizades... e meditar... e reencontrar velhos amigos... e demais companheiros de jornada!
Sábado, 09 de Julho de 2011

Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo... A morte de cada homem diminui-me porque eu sou parte da humanidade.

John Donne



publicado por eva às 00:11
Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

Mas tu não sabes,

Tu não vês

Que cada dia,

Só será dia se o tiver justificado?

 

Nunca sentiste

Essa estranhíssima euforia

Que perpetua

Aquilo que é criado?

 

Não reparaste

Nas razões que desconheces

A sorrirem pr’a ti

Como se as preces

Não fossem as fronteiras

Do tangível?

 

Duma humildade que tanto apregoas,

Duma vontade que não dá descanso,

Desse incondicional nunca parar

Que irá justificar sermos pessoas…

 

Daquilo que vais dando e eu nunca alcanço

Porque é sempre um recuo, esse alcançar…

 

Se crês poder voar…

                                     porque não voas?


 

Maria João Brito de Sousa em  http://liberdadespoeticas.blogs.sapo.pt/2011/03/09/




publicado por eva às 20:41
Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

Toco este chão

Com olhos de quem beija

E sei que não embarcarei

Mais vez nenhuma

 

Chão de mim

Em mutação constante

Que outra força

De mim te afastaria?

 

Constantemente o toco

Com mãos ocas de um nada

Que despejo

E depois recolho

Cheias de um tanto

Que só eu desvendo

 

Por isso sei

Que não embarcarei

Enquanto as mãos

Puderem sentir

E pressentir

O chão que me deu vida

 

 

Maria João Brito de Sousa

in http://liberdadespoeticas.blogs.sapo.pt/

de 17.11.10



publicado por eva às 21:38
Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Aqui estou,

completamente desdobrada

entre o meu eu do primeiro instante

e o meu eu do último segundo,

no momento exacto

em que acabo de riscar

o que foi escrito

e começo a desenhar

a primeira letra do que está por escrever

 

Isso sou,

não mais e nunca menos,

exceptuando o pequeno intervalo

entre ser e não ser

em que fui tão além

sem que pudesse escrevê-lo

porque escrever não fez

nem poderia ter feito o menor sentido

 

Irei,

enquanto se me não cumpre esta distância

entre antes e depois

e nada mais peço

se não este ser

gato-com-ou-sem-botas,

bicho-alado-sem-asas

ou fruto perfeitamente cristalizado

no mesmíssimo ponto

em que qualquer árvore É

antes de lhe apodrecer a raiz

e depois de a Vontade a ter tocado

seja em que universo for!

 

Maria João Brito de Sousa – 01.12.2010



publicado por eva às 12:36
Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Eugène Ysaÿe (16 de Julho de 1858, Liège, Bélgica – 12 de Maio de 1931, Bruxelas, Bélgica)

 

 

 

 

 

 Sonata nº 2 para violino, 1º andamento com Ilya Kaler no violino

 

Poema Elegíaco  (parte 1)

com Philippe Graffin no violino e Pascal Devoyon ao piano

 

Poema Elegíaco  (parte 2)

com Philippe Graffin no violino e Pascal Devoyon ao piano

 



publicado por eva às 00:33
Terça-feira, 01 de Junho de 2010

Em Portugal comemora-se hoje o Dia da Criança.

Decidi ilustrá-lo com uma das mais belas páginas sobre crianças.

 

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

 

de Almada Negreiros

in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte" 

 



publicado por eva às 23:30
Sábado, 29 de Maio de 2010

Há muitas formas de energia no Universo.

 

 

Optei por ilustrar deste modo e com um poema da "nossa" querida Maria João.

 

A cada um a sua energia?

 

 

Não vá ser tarde...

 

 

Queixo-me destas mãos

que se me colam

às folhas de papel

dos dias neutros

 

quantos dias, porém,

me serão neutros

se as folhas de papel

se me colarem às mãos?

 

Subo ao telhado

da nova contradição

vestindo as penas brancas

de um segredo

e rio-me dos fios de prata que correm

nas caleiras de um medo desconhecido

 

depois torno a queixar-me

das mãos neutras

coladas ao papel dos dias

dou um salto

em forma de metáfora 

e pouso suavemente

na superfície desta enchente de mim

 

Lembro as fábulas

que os deuses me contavam

no tempo em que o homem dominava a terra

e as cidades cresciam como cogumelos

 

então, encosto-me

à metade verde dos anjos

não vá,

de repente,

ser tarde demais para renascer

 

Maria João Brito de Sousa

in blog http://liberdadespoeticas.blogs.sapo.pt/



publicado por eva às 13:02
Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto nasceu em Parral, Chile, em 12 de julho de 1904. Anos mais tarde, em 1923, Ricardo Basoalto vendeu todos os seus bens, penhorou o relógio presenteado pelo pai e publicou o seu primeiro livro, “Crepusculario”. O mundo ficou a saber que havia um poeta que assinava Pablo Neruda.

 

 

O Pai

 

Terra de semente inculta e bravia,

terra onde não há esteiros ou caminhos,

sob o sol minha vida se alonga e estremece.

 

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas

que me abrasam os olhos e as faces.

 

Escureceu-me a vista o mal de amor

e na doce fonte do meu sonho

outra fonte tremida se reflecte.

 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram

o que me deram e porque depois

conheci a solidão do céu e da terra.

 

Olha, minha juventude foi um puro

botão que ficou por rebentar e perde

a sua doçura de seiva e de sangue.

 

O sol que cai e cai eternamente

cansou-se de a beijar... E o outono.

Pai, nada podem teus olhos doces.

 

Escutarei de noite as tuas palavras:

... menino, meu menino...

 

E na noite imensa

com as feridas de ambos seguirei.

 

 

Pablo Neruda, in "Crepusculario"

 

 

 

Fotografia original em http://www.neruda.uchile.cl/infancia.htm 

 

 

«Escrever é fácil. Você começa com uma maiúscula e termina com um ponto final. No meio coloca ideias.»

Pablo Neruda

 



publicado por eva às 19:13
Domingo, 24 de Janeiro de 2010

 

A menina de vestido azul
Avança dois passos à minha frente.
O horizonte termina na linha do comboio
Que descortino subitamente.
 
A luz vermelha acende no preciso momento
Em que a menina de azul
Pisa o primeiro carril.
 
Grito, aceno, alerto,
Mas ela não me ouve.
 
O comboio passa e a menina permanece
Apesar dele, dos acenos e dos gritos.
Apesar da luz vermelha…
 
Sou eu quem não está lá,
Naquela inexistente passagem de nível
Onde acaba a linha do horizonte.

 

 



publicado por eva às 22:57
Domingo, 17 de Janeiro de 2010

Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de Bulhões (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - 21 de Agosto de 1986) 

 

 

Perfilados de medo
 
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
  
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
  
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
 

 

 

O Poema Pouco Original do Medo
 
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
 
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes 
ouvidos não só nas paredes 
mas também no chão 
no tecto
no murmúrio dos esgotos 
e talvez até (cautela!) 
ouvidos nos teus ouvidos
 
O medo vai ter tudo 
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos 
heróis
(o medo vai ter heróis!) 
costureiras reais e irreais 
operários
          (assim assim)
escriturários
          (muitos)
intelectuais
          (o que se sabe) 
a tua voz talvez 
talvez a minha 
com certeza a deles
 
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
 
Ah o medo vai ter tudo 
tudo
 
(Penso no que o medo vai ter 
e tenho medo 
que é justamente 
o que o medo quer)
 
             *
O medo vai ter tudo 
quase tudo 
e cada um por seu caminho 
havemos todos de chegar 
quase todos 
a ratos
 
Sim
a ratos

 

 
in  "Alexandre O'Neill - Poesias Completas 1951/1983”
 


publicado por eva às 11:58
Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Com a devida vénia, transcrevo aqui uma análise ao poema Liberdade de Fernando Pessoa, análise postada em http://omj.no.sapo.pt/Forum/poema_liberdade.htm , no sítio O Major Reformado

 

"Datado de 16/3/1935, o poema "Liberdade" é um dos poemas mais conhecidos e citados de Fernando Pessoa. É um poema ortónimo, ou seja, escrito por Fernando Pessoa em seu próprio nome e aborda um tema raras vezes abordado pelo poeta de modo tão explicito: a liberdade humana.

 

À primeira vista trata-se de uma abordagem leve e divertida ao tema. Essa é claramente a sensação que se tem ao ler o poema. "Ai que prazer / Não cumprir um dever" - uma leveza simples e recta, que fala de como é bom não ter deveres, ou tê-los e não os cumprir, numa rebeldia com que sonham todas as crianças.

 

Mas em Pessoa nada é simples, muito menos recto...
 
Há uma chave para desvendar este poema "Liberdade". Um poema eu considero ser de uma intensa ironia. Mas essa chave curiosamente não está no poema, mas apenas referenciada nele de modo indirecto. É uma pista que Pessoa lança ao leitor, mas apenas ao leitor mais interessado - um leitor de segundo nível, que ignora o tom superficial leve das palavras e se interessa pelo conteúdo escondido das intenções.
 
Que pista é esta? Está numa citação que Pessoa nunca colocou, mas que devia vir logo a seguir ao título. No manuscrito original Pessoa escreve debaixo do titulo do poema: "(Falta uma citação de Séneca)".
 
Que citação é esta? E quem era Séneca?
 
Séneca foi um filósofo do Séc. I, um estóico preocupado com a ética. Não nos alongaremos com a análise da vida deste filósofica, mas citaremos dois principios dele que nos interessam para a compreensão do poema "Liberdade". Dizia Séneca que o cumprimento do dever era um serviço à humanidade. Para ele o destino estava predestinado, o homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo, mas apenas a aceitação lhe pode trazer a liberdade. Eis o estoicismo na sua essência.
 
Eis o filtro que se deverá usar na leitura do poema "Liberdade": o estoicismo de Séneca.
 
Tudo o que antes parecia ligeiro, agora é intensamente irónico. Fernando Pessoa pensa o contrário do que diz o seu poema. Se ele diz que bom é não cumprir um dever, ele pensa o contrário, que o dever é essencial para a liberdade, se o homem quiser ser livre, terá de se submeter ao cumprimento do dever que lhe é imposto.
 
Outra achega: a semelhança entre a ironia utilizada e a escrita que se assemelha à de Caeiro. É Caeiro o heterónimo que renega igualmente o dever e o heterónimo que domina Pessoa no inicio das suas decisões, que o prende à realidade e lhe permite ascender aos astros. Será Pessoa aqui também um critico de si próprio e um critíco de Caeiro? Não poderemos dizer ao certo, mas parece-nos que sim, que as palavras de Pessoa são irónicas e dirigidas a Caeiro, ao seu próprio sonho de juventude, em que pensou ser possível ser livre das ideias.
 
Afinal este poema é um ensaio de revolta contra o que Caeiro disse, contra os próprios projectos falhados de Pessoa. Ele que queria atingir a liberdade libertando-se de tudo, da civilização, dos deveres, dos livros, ser apenas criança... O titulo - Liberdade - é apenas uma ironia triste e amarga e um contra-senso propositado. Arde em Fernando Pessoa a derrota da sua aventura, perto que está da morte quando escreve este poema. Este poema é de certo modo o epitáfio intelectual de Caeiro - o Mestre, por parte de Fernando Pessoa - o Criador.
 
Ps: há quem adivinhe neste poema de Pessoa também uma crítica social implicita, sobretudo nos versos: "Flores, música, o luar, e o sol que peca / Só quando, em vez de criar, seca." e na referência às finanças, que encobriria um ataque a Salazar, que foi, como se sabe, Ministro das Finanças entre 1928 e 1932". 
.
.
E agora acrescento eu!
Para quem possa estranhar, na análise acima transcrita, a referência a Salazar que pode parecer algo forçada (pois não é uma faceta muito conhecida de Pessoa) não é, no entanto, de estranhar.
Pessoa criticou abertamente Salazar tendo-lhe dedicado alguns poemas, nomeadamente e a título de exemplo:
 
 
Antonio de Oliveira Salazar.
Trez nomes em sequencia regular...
Antonio é Antonio.
Oliveira é uma arvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
 
**************************
 
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A agua dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
 
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
 
***************************
 
Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
 
Bebe a verdade
E a liberdade,
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
 
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné,
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
Mas ninguém sabe porquê.
 
Mas, enfim, é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé:
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.
 
 
in "Edição Crítica de Fernando Pessoa - Volume I, Tomo V. Edição de Luís Prista. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000"
.
. 

 

.
João Villaret diz o poema "Liberdade" 

.

.



publicado por eva às 13:13
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